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Tratamento precisa envolver várias frentes



Matéria extraída da Revista Super Saudável - Publicação da Yakult do Brasil - Ano X - N° 47 - Julho a Setembro/2010



Profissionais da saúde, entidades, familiares e governo buscam o fim definitivo dos manicômios no Brasil

Adenilde Bringel


      
A alta prevalência de transtornos psíquicos é um fenômeno mundial e seu crescimento em todos os países e segmentos sociais torna a questão da saúde mental uma prioridade para a saúde pública. Apesar da alta prevalência, muitos indivíduos seguem sem ser tratados, seja porque há baixo investimento nos programas de saúde mental nos países ou porque é grande o estigma em relação aos doentes com transtornos mentais. Em 2002, a cobertura dos Centros de Atenção Psicossocial no Brasil era de 21% da população, enquanto hoje já chega a 62%. No entanto, ainda exista uma grande lacuna no tratamento desses pacientes. "Mas esse é um fenômeno mundial. Não há dúvida de que o acesso à saúde mental no País aumentou", acentua Pedro Gabriel Delgado.

      O Brasil faz parte, com outros nove países, de um grupo convocado pela OMS para elaborar um conjunto de estratégias para a redução da lacuna de tratamento de transtornos mentais no mundo, cuja abordagem deve ser multidisciplinar, envolvendo vários profissionais da saúde. Segundo o representante do Ministério da Saúde, compete aos médicos, além do papel no estabelecimento de um diagnóstico e na elaboração de um projeto terapêutico individualizado, que deve ser construído com outros profissionais, a prescrição de medicamentos (quando indicada), o acompanhamento psicoterápico, bem como a participação no conjunto de atividades desenvolvidas no tratamento de cada indivíduo.

      Para Paula Cambraia de Mendonça Vianna, o programa de saúde mental brasileiro é fantástico e espelha outros países, embora as dimensões continentais do Brasil dificultem o atendimento para todos os pacientes. "Muitas vezes, também ocorre algo grave na prática clínica, pois os profissionais falam da reforma psiquiátrica, mas, na hora de tratar os pacientes, os encaminham para manicômios. Há uma dicotomia entre o discurso e a prática que precisa ser repensada", lamenta. A professora ressalta que os profissionais que tratam de pacientes com transtornos psíquicos devem humanizar a assistência sob as diretrizes da reabilitação psicossocial, cidadania e liberdade, respeitando a história de cada indivíduo.


      
O psiquiatra Leon Garcia acrescenta que o tratamento de transtornos psíquicos geralmente é longo e necessita de acompanhamento, o que não significa que os pacientes não possam ter uma vida normal. A prova disso é que uma das maiores autoridades em Transtorno Bipolar de Humor (TBH), a psicóloga norte-americana Kay Jamison, é autora de tratados sobre o tema e livros que relatam a sua história pessoal com a doença. "O que sabemos é que quanto mais cedo o paciente tiver a crise, pior é o prognóstico, porque a doença pode atrapalhar os planos de quem ainda não tem uma estrutura familiar e profissional bem construída", enfatiza Leon Garcia. No entanto, o que pode interferir de forma importante é a aceitação da doença, pois quanto menos estigma, melhor a evolução do paciente. E, neste caso, o entendimento da família e da sociedade sobre a enfermidade é fundamental.

TERAPIAS EM GRUPO

      Leon Garcia explica que as terapias de grupo são efetivas nos tratamentos de transtornos leves. No entanto, se não houver melhora é necessário entrar com antidepressivos. Já nos casos moderados e graves é preciso atuar com as duas frentes e, neste caso, o médico generalista deve dar lugar ou se aliar ao psiquiatra para o tratamento. "É consenso de que o tratamento psicoterápico, que envolve psicólogo e terapeuta ocupacional, também é importante", orienta. A diferença entre o Brasil e países como Estados Unidos e Inglaterra é que há muito tempo os psiquiatras não atuam sozinhos, mas com equipe multidisciplinar, o que ajuda a melhorar a qualidade de vida dos portadores de transtornos psíquicos.


ATENÇÃO COM AS CRIANÇAS


      Na origem dos transtornos psíquicos podem estar dificuldades de comportamentais não tratadas adequadamente na infância, como dislexia, hiperatividade, impulsividade e dificuldade de aprendizagem. Essa vulnerabilidade, aliada à história de vida dos indivíduos, pode levar ao desencadeamento de doenças como depressão e comporta­mento antissocial, que estão no rol dos transtornos psíquicos mais comuns. Esse modelo, chamado de epigenético, sugere que indivíduos com vulnerabilidade genética são mais suscetíveis a problemas de sanidade mental quando submetidos a determi­nadas experiências, como um transtorno de estresse pós-traumático, por exemplo.

      "Esse modelo pressupõe que a doença mental seria o desfecho do desenvolvimento de cada indivíduo, do processo epigenético no qual o genótipo se expressa interagindo com o fenótipo, ou seja, o ambiente", explica o neurologista e professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Vitor Haase, ao ressaltar que o principal fator estressante são os problemas não tratados na infância, principalmente a qualidade do vínculo entre pais e filhos. O médico afirma que crianças de famílias mais estruturadas costumam ter menos problemas de aprendizagem e de comportamento e, consequentemente, são mais seguras e menos sus­cetíveis a transtornos psíquicos. Em contrapartida, aquelas que não recebem atenção e incentivo por parte da família, ou vivem em situação de extrema pobreza e em famílias desestruturadas, tendem a desenvolver atitudes oportunistas e predatórias.

      "Se há carência de recursos materiais e afetivos, a criança vai preferir a conquis­ta da recompensa imediata. Essa impulsivi­dade, aliada a uma sensação de frustração e baixa-estima, é um fator de risco para a saúde mental na vida adulta", define. O Brasil tem aproximadamente 30% da popula­ção em idade escolar com algum transtor­no mental, como hiperatividade e dislexia, além de transtorno desafiador opositivo, no qual a criança está em constante desobe­diência, e transtorno de conduta, compor­tamento difícil que pode evoluir para agres­sões físicas e verbais com relação aos co­legas, à família e até aos animais.


Fotos: Alina555 / Istockphoto (superior) e DigitalVision (centro e inferior)

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