Nos anos 70, Ivan Ilich, filósofo contemporâneo, no seu livro “A Expropriação da Saúde”, criticou a medicina atribuindo-lhe a causa de vários problemas de saúde. Denunciou a iatrogenia (doença provocada pela prática médica) e o modelo hospitalocêntrico da medicina biomédica hegemônica que causava vários problemas de saúde.
Inúmeras internações desnecessárias ou prolongadas causavam as “doenças hospitalares”, entre as quais as infecções oportunistas e os efeitos colaterais graves da antibioticoterapia indiscriminada (a anafilaxia, a surdez e a resistência às drogas por exemplo). As internações também eram responsáveis por doenças mentais como a depressão, a ansiedade e a alienação por isolamento da vida, sem contar com as escaras de decúbito e as atrofias musculares por falta de movimentação e ausência de sol.
Nesse contexto foi surgindo a construção do modelo de saúde coletiva, que seria “redebasicocêntrico” e teria como finalidade a atenção à saúde objetivando a transformação social do indivíduo utilizando a democracia na prática médica e nas ações de saúde. “A democracia é a realização política da ética maior que se expressa na solidariedade e na cooperação e no respeito pelo outro”. Humberto Mariotti
Ainda ampliando o ideário dessa época a publicação do livro “Sugar Blues”, de William Dufty, denuncia o consumo de refinados: açúcar (o principal) e grãos. Segundo Dufty “O açúcar refinado é causador de depressão, de infecção por leveduras e da obesidade que cresce na população dos Estados Unidos”.
Seguindo, nesse mesmo contexto, surgiu George Osawa, um cidadão japonês que viajou o mundo divulgando a macrobiótica, sistema alimentar criado por ele baseado em sua própria experiência de vida e fundamentado em princípios filosóficos da medicina chinesa (teoria do Ying e Yang). O sistema por ele idealizado consistia em retirar da dieta alimentar a química e os carboidratos refinados (energias Yin) e acrescentar cereais integrais orgânicos (energias Yang). A filosofia macrobiótica objetiva acrescentar anos à vida e vida aos anos, o que traduziríamos como aumentar a expectativa e a qualidade de vida.
A integralidade dos cereais que Osawa tinha utilizado revelava a humanidade que nele havia se ampliado, tornando-se importante agente de transformação social.
No entanto, a integralidade da saúde e da vida, que hoje é pressuposto constitucional do sistema único de saúde (SUS) não conseguia sequer ser pensada, a não ser na utopia dos jovens estudantes que éramos nós.
A ditadura vivida pelo Brasil, naquela época, fazia com que nós, os aprendizes da liberdade, almejássemos, nos bairros, nos centros acadêmicos, nos jornais da FCM, na periferia, na música, nos centros de saúde e de cultura, no teatro... a tão sonhada saúde ampliada que transforma a pessoa em gente e grupos em comunidades.
Lá no passado, bem antes da democracia, Jorge Amado saiu da Bahia, George Harrison (ex-Beatle) foi cantar na Índia, para unir as forças de um mundo dividido pelo muro de Berlim.
Lá atrás, quando Vinícius de Moraes foi afastado da diplomacia, Woodstock se fez bandeira de uma juventude protestando por liberdade, paz, amor... enfim, saúde.!!! Enquanto nós adoecíamos coletivamente calados e protestávamos por uma vida melhor aderindo à medicina do oriente, a ayurveda da Índia, à medicina tradicional chinesa e, para não ingerir químicas, adotávamos a homeopatia, as ervas e tudo que era simples, natural e espiritual.
Preservávamos a ecologia da natureza e a natureza das pessoas tentando ensinar-lhes modelos alternativos de alimentar-se, de vestir e de viver.
Nesta altura, eu já tinha deixado o Rio e sua eternas manhãs de praia e escrevia em Sorocaba para o jornal Muxirão do Centro Acadêmico Vital Brasil contra ao endeusamento da bactéria apoiada pelo professor Walter Maffei, um vitalista puro e convicto, que nos fez voltar-nos para uma medicina mais humana: a da comida quente, da liberdade de expressão, da troca de carinho, da construção coletiva, política, e participativa...
Mais tarde, estudávamos, extra-curricularmente, um modelo de atenção à saúde alternativo que prometia ir longe: “os médicos dos pés descalços”, que talvez sejam, hoje em dia, os nossos agentes comunitários de saúde.
Na praia de Ipanema, tocávamos e ouvíamos a democracia, e lutávamos em silêncio com a música de Chico Buarque porque o amanhã seria outro dia, até que um dia seria o dia de hoje, aqui e agora.
Aqui estamos, trabalhando na universidade, a saúde na democracia, da “contrapoesia”, trazida daqueles tempos rebeldes: as medicinas complementares que podemos utilizar agora bem como as nossas medicinas tradicionais brasileiras que, até então, eram só um alternativo protesto ao mundo do consumo sobre ameaça da bomba atômica.
Abraçamos aqui e agora, o SUS: Sistema Único de Saúde, que oferece uma atenção “holística” à saúde do brasileiro para que ele possa ser agente de transformação de si mesmo e do seu grupo sócio-cultural.
té hoje continuamos fazendo uma política de saúde menos voltada para a medicalização e mais para a humanização, que possa construir saberes identificados com “o bom, o belo e o puro’ (Platão), e que respalde cada comunidade no sentido de que ela possa colaborar com o que tem de melhor: seus membros, com suas individualidades, seus problemas, suas soluções e seus mistérios.
Aqui mesmo, nos dias de hoje, insistimos na valorização do individual tentando construir um coletivo que se sustenta, cresce e se amplia, contando com várias colaborações, várias culturas, várias medicinas que, escutadas e acolhidas na integralidade, na interdisciplinaridade e no pensamento sistêmico complementando o linear, serão verdadeiras ferramentas de manutenção da saúde coletiva e do crescimento humano e solidário do grupo.
Voltamos a olhar e reencontramos a tão sonhada “clínica ampliada”, e a integralidade, não a qualidade de cereal não beneficiado, mas a integralidade da atenção à saúde. Observamos a consolidação de certos valores e percepções, de juntar a assistência médica, a educação e a prevenção da saúde num só momento de atendimento na unidade de saúde por um só médico ou vários profissionais de saúde.
Os centros de saúde do passado são hoje unidades que buscam construir o tratamento de seus usuários, que eram pacientes e se tornaram parceiros dos trabalhadores de saúde numa relação de atenção ampliada construindo bem-estar próprio, ímpar, individualizado que é a “saúde ampliada”.
Essa tal de saúde ampliada não deixa de ser um saber e um neoconceito científico só porque é feliz, só porque multiplica amorosamente o bom, porque o amor tem sido resgatado...
Porém, no mundo globalizado de violência, de uma educação globalmente pobre e de um individualismo que culpa os cidadãos pela própria desobediência ao que a ciência divulgou como sendo fator de risco para a saúde, fica difícil introduzir ações comunitárias...
Individualmente, e sem assistência médica, todos correm para a academia de musculação, até os mais pobres pagam suas cirurgias plásticas a prestação e excluem o cereal da refeição...
-Deus, já não podemos nos alimentar do sagrado pão?
-Onde mora a filosofia, a cultura e o amor no Império Neoliberal? Será que esses valores foram raptados?
-O amor ainda mora na democracia... Ele mora na medicina, profissão que me segura e me envolve através dos anos, e me convida a distribuir esse saber que foi me dado pelos meus mestres, meus arquétipos e minhas paixões.
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